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CONTO FCBR #1 - SUSPIROS LIQUEFEITOS (parte II)

Na melancolina, o eu contrai algo da perda e do
abandono que agora marca o objeto, um abandono que
é recusado e, justamente por ser recusado, é 
incorporado. Nesse sentido, recusar uma perda é 
se tornar a perda. 

A vida psíquica do poder, Judith Butler


V

Luiza imaginou que seria fácil lidar com a pressão do novo trabalho. Ganharia muito bem. Encontraria uma área da programação em Realidades Aumentadas que lhe garantiria destaque ético. Porém, quando o assunto é o ser-humano, tudo é relativo. Encontrou nos processos dos clientes premium um terreno tão interdisciplinar, que sentiu saudade do antigo local de trabalho na pacata representante de álcool e cosméticos.
No bar com algumas amigas e a namorada Vivian, Luiza só conseguia militar a favor de sua boa intenção.
- A gente oferece o que todo mundo sempre buscou. É simples entender o projeto Yorick. Eu topei o trabalho não só pelo salário, mas porque eu também ajudo as pessoas a curar seus traumas.
Como de costume, Vivian descordou da amante.
- Eu não sei não... - e as amigas riram.
- Porra Vi! É simples! Você não está na cabeça de quem sofreu uma experiência traumática. Remédios para controle emocional, horas de terapia para tentar minimamente rearranjar tudo que foi estilhaçado. Quando você tem opções de permitir que um programa de Realidade Aumenta como o Yorick reorganize as coisas aí dentro, sem que você sofra, você acha que vai incomodar quem?
As meninas da mesa olharam para Vivian, depois voltaram a olhar para Luiza, que tomou de volta o turno de fala.
- Tem muita gente poderosa incomodada...



VI

Os médicos especialistas desse hospital gostam de manter a barba por fazer... parece uma vaidade reminiscente da adolescência. Talvez eles não tenham se dado conta do distanciamento da pessoa que foi ontem e de quem é hoje. 
Ana ouvia o doutor como se ele estivesse na beira de uma piscina e ela, submersa na água, o observando de lá de baixo. Ao voltar para tomar ar, começa a ouvir com nitidez a partir de...
- (...) um alívio para a família, mas não sabemos e um assassinato para Solange. Enquanto não houver um laudo médico preciso validando que os resultados aparentes do Projeto Yorick estão relacionados a um funcionamento consciente de um metaverso interno, fruto dos fluxos neurais da paciente, ficamos nesse impasse em acreditar e desacreditar. 
Ana balançava a cabeça oras afirmando, oras negando, sempre validando o que o doutor dizia. Então, se sentiu no dever de deixar o copo transbordar.
- Eu... não suporto ver minha irmã... nesse estado. - deixou a lágrima correr.
- Eu sei que é difícil... - o doutor tocou a mão no ombro de Ana. 
- Sabe doutor... é que dói demais saber que ela pode estar feliz lá dentro, em uma vida que nenhum de nós faz mais parte.



VII

Luiza defendeu a seguinte tese: o projeto Yorick conserva identidades positivas e aniquila todas as negativa de seus clientes. Reúne as experiências de vida em um infinito banco de dados. Uma machine learning recombina situações em uma rotina de sete dias. No mundo simulado, ninguém morre, ninguém envelhece, ninguém se indispõe com ninguém. Os pacientes ficam imersos nessa realidade o quanto desejarem. A proposta ambiciosa da empresa é criar interfaces seguras que permitam imersão controlada para pessoas com vidas equilibradas.
Após a apresentação prévia da planilha de detalhamento das atividades dos especialistas envolvidos no projeto, abriu para as perguntas da imprensa, que contava com três video-conferências em sua sala habitual de trabalho.
- Sou do jornal Paulista Virtual. Há um conjunto de questionamentos sobre a capacidade real do projeto traduzir os impulsos conscientes do usuário. O que especialistas acreditam é que o projeto é apenas uma narrativa fake que convence a família dos acamados de que eles estão felizes em um metaverso inventado.
Luiza respirou fundo.
- Nós, envolvidos no Projeto Yorick, ficamos muito desapontados com as tentativas da imprensa em nos desqualificar. Nossos técnicos garantem que o metaverso externalizado em relatórios audiovisuais traduzem os impulsos cerebrais de nossos clientes, comprovando que eles de fato vivem a experiência positiva apresentada nos relatórios.
Outro jornalista tomou o turno da pergunta.
- Mas há cientistas qualificados em grandes universidades brasileiras que questionam essa tese...
- Cientistas que não se envolvem diaramente no projeto e não estão cientes do compromisso ético de nossa equipe. Nós temos a cura para o coma, para o trauma, para a melancolina com um remédio simples e barato: as próprias experiências positivas de nossos pacientes. Vocês tem ideia do quanto isso fere o monopólio das indústrias farmacêuticas do país? Há um medo terrível de tomarmos o mercado para nós, resolvendo situações-limite que governo e iniciativa privada nunca foram capazes de resolver!



VIII

Solange procurava as chaves de seu carro. Tinha certeza absoluta que as entregara ao manobrista. No entanto, ele já a havia mostrado as gravações de segurança do dia, comprovando o contrário. Diante de uma situação boba como aquela, seu peito encheu de uma angústia embriagante. Perdeu as chaves de seu carro? Teria sido capaz disso, também? Já não bastava o que já perdera durante aquela longa semana? 
Perder, para Solange, era um verbo que arremessava seu consciente a um túnel de reminiscências que embaralhavam sua capacidade de concentração e autocontrole. Em poucos minutos, no acento de espera do estacionamento, começou a chorar copiosamente, enquanto era consolada por dois funcionários.
- A senhora não tem uma chave reserva com alguém?
- Seguro?
Não tinha cabeça para isso. Não queria saber de substituir mais coisas em sua vida. Por uma falta de atenção, perdera aquelas chaves. Chaves tão necessárias para sua locomoção diária. Agora, se atrasava para o jantar. Jantar que ela teria que preparar sozinha, pois também perdera Eduardo. Eduardo foi embora por que ela não lhe dava a atenção necessária. Não havia sido a companheira que ele merecia. Ela permitiu que o relacionamento esfriasse. Naquele momento, tudo que sobrara, a fagulha respeitosa da separação amigável. 
Eduardo era exemplar. Lhe deixou casa e carro. Foi morar na casa dos pais no dia seguinte que decidiram separar. Isso é justo, Solange? Logo você, que sempre ganhou mais que ele, ficaria com tudo? Será que Eduardo estava bem? Saiba que se ele passar por alguma necessidade, a culpa será sua! Com certeza sua. 
Para Solange, perder Eduardo era mais que perder o cheiro e o abraço de um homem de meia idade. Significava declarar encerrada toda uma trajetória de vida idealizada, de felicidade possível e sempre quase alcançada. Tudo que ainda não tinham vivido nunca mais poderá acontecer. Costumavam dizer juntos: quem sabe um dia nos aposentamos e moramos em uma praia grega? E agora esse dia nunca mais chegará. E a culpa é sua, Solange!
- Vou ligar para o Eduardo!
Em prantos, não conseguia pronunciar nem uma frase.
- Alô? Alô? Solange? Pelo amor de Deus, Solange, o que está acontecendo?
Ela desligou. Os funcionários nem se deram conta que ela também saiu como uma bala de onde sentava. Largou bolsa e tudo que tinha para trás. As palpitações em seu coração aceleraram. Parecia que seu peito ia explodir. 
O ritmo movimentado da avenida não teve tempo de entender que Solange acabara de ter uma crise. Depois do atropelamento, restou aos funcionários ligar para o SAMU e retornar a última ligação realizada pela vítima.
- A senhora... a senhora que acabou de te ligar... foi atropelada! É bom o senhor correr aqui imediatamente!



IX

Já era tarde quando o telefone tocou. Ana deixou que a mãe o atendesse. Ouviu de longe algo sobre a irmã. No quarto ao lado, ela tinha certeza que o pai levantava e vestia as chinelas, na tentativa de entender alguma coisa naquele estado ainda sorumbático do sono mal acordado. Ana escutou a porta de seu quarto abrir.
- Aninha... é do hospital. Estão dizendo para irmos até lá que a situação da Sol é grave.
- Como assim?
- Houve um problema de contrato com o convênio e a empresa que examina a cabeça dela. Eu... não entendi direito.
No consultório médico, estavam a representante do Projeto Yorick, um representante do convênio médico, o doutor plantonista, Ana e seus pais acordados.
- Boa noite. Desculpe incomodá-los a essa hora da madrugada. - começou a representante do Projeto Yorick. - eu me chamo Renata. Muito prazer.
Ana e seus pais cumprimentaram a jovem de forma cortês.
- Tivemos um problema de quebra contratual com o convênio médico de Solange. Não é comum um convênio parar de custear tratamentos em andamento, mas infelizmente essa parece ser a decisão de seu plano. É importante vocês entenderem que os riscos ao interromper o tratamento são muito grandes. O choque em transportar Solange de uma Realidade Aumentada confortável para uma Realidade Concreta nessas condições pode levá-la a um óbito cerebral instantâneo. Diante do médico plantonista desse hospital, informo que nossa empresa é contra esse procedimento e não se responsabiliza por essa eutanasia maquiada promovida pelo convênio médico da paciente.
Naquele momento, o representante do convênio médico tomou a palavra.
- A senhora me permita discorrer sobre o ponto de vista de minha empresa. O projeto Yorick não tem regulamentação no Conselho Nacional de Medicina. É uma prática duvidosa, naquilo que diz respeito aos benefícios da vida da paciente. Entendemos que as Realidades Aumentadas relatadas pela empresa não asseguram um verdadeiro bem-estar para a paciente. Eu gostaria que os familiares entendem nosso ponto de vista. Como o caso de Solange, temos milhares de pacientes em coma profundo no Brasil que tiveram seus aparelhos desligados. O custo para manter uma empresa de Realidade Aumentada em funcionamento é muito elevado, levando em conta a expectativa de vida de Solange. E o benefício social... o benefício social para os familiares é questionável. Dá para ver no semblante de cada um de vocês o luto permanente em forma de melancolia. A família precisa permitir que Solange descanse. A família precisa virar essa dura página de sua história e cultivar boas memórias de seu familiar. Isso não é o que fizemos durante gerações e gerações? O projeto Yorick é uma anestesia muito boa para o luto, mas ainda não garante conforto social à vítima e muito menos aos familiares. Por isso, decidimos interromper o contrato com a empresa.
Luciana olhava concomitantemente para a mãe e para o pai. Buscava o conforto de um juízo seguro. Sonhava pela velha resposta simples dos tempos da infância. Anda! Diga alguma coisa! O que eu devo fazer? Pelo amor de Deus, não deixem nas minhas mãos a decisão de vida da minha irmã!
Os pais de Ana só olhavam para os próprios pés.



X

Registro 109403 - projeto Yorick - Memento Mori

O sabor da cerveja é diferente. Solange nunca gostou de Stout, mas aquela cerveja é uma delícia. O gosto do malte permite Solange lembrar do sabor do café coado de sua avó. Também lembra da mãe e da irmã. Solange sente uma mão gelada em sua cintura, embaixo de sua blusa. Eduardo a beija e sua boca tem o mesmo gosto da cerveja stout que Solange toma. Eduardo tem o perfume da manhã.

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