''Eu o conheci, Horácio, um companheiro
de inúmeras brincadeiras, de notável
fantasia, que carregou-me às costas umas
mil vezes, e agora, quão abominável me parece!
Causa-me um nó na garganta vê-lo agora.''
Hamlet, de William Shakeaspeare
I
Registro 57898 - projeto Yorick - Memento Mori
Solange está na porta do elevador, no andar do estacionamento. Seu pulso começa a arder, pelo peso das sacolas de compras. Quando o braço parece fraquejar, é surpreendida por um beijo no pescoço e uma mão forte que toma para si as sacolas. Se assusta, mas logo se dá conta de que chegou ao mesmo tempo que Eduardo.
- Sei que já devia ter chegado. Me desculpe. Conseguiu tudo no mercado? - o marido ainda tem o perfume da manhã.
- Sim, tudinho!
- Então, o jantar é por minha conta. Você descansa...
II
Luiza ainda se adequava à nova rotina de gerente de relações públicas do Projeto Yorick. Na mesa, alguns documentos com o título Memento Mori e processos de dois clientes premium. Quando a água quente entrava em contato com o pó do café, ela costumava levantar em processo hipnótico. Respirou e caminhou até a dispensa coletiva. Dois colegas de trabalho enchiam suas xícaras personalizadas.
- Complicada a situação?
- O problema é a pressão sob os familiares. Se os planos de saúde parassem de encher o saco...
- Sou contra a eutanasia, se ela ainda tem atividade cerebral.
- Eu também.
- No fim, sobra no nosso rabo. - Luiza abria o sachê de açúcar - vamos rebolar para provar que os conteúdos que apresentamos são experiências reais.
- Se não conseguirmos, a galera vai voltar a programar jogos de celular.
Os três riram, enquanto Luiza tomava a segunda xícara de café.
III
Ana dormia com Solange uma vez por semana. A rotina de trabalho era intensa, mas pelo menos conseguia um tempo junto da irmã. Recordava da infância... da adolescência... também deve ser bom pra ela.
- Lembra quando você precisou de ajuda com aqueles garotos do nono ano? - Ana sorria, enquanto penteava Solange. - era Diego o nome de um deles, né? Eu acredito que eles só queriam chamar sua atenção. Você era bonita. Moleques são tão bestas... - Ana tinha muito cuidado em não tocar nos fios que conectavam o corpo de Solange à máquina que media constantemente seus batimentos cardíacos. - Ele costumava pegar o elástico de seu sutiã e soltar em suas costas. Também lhe colocava apelidos por conta dos seios grandes. Como eu sou mais velha, juntei mais duas amigas e demos uma surra neles. - Ana pegou a mão direita de Solange e esfregou o algodão com acetona para remover o esmalte antigo. - um deles ficou com o nariz inchado. Mamãe e papai tiveram que sair mais cedo do trabalho. Ficamos um mês sem internet. - havia um tubo de esmalte com uma etiqueta escrita a mão Preto da Sol - talvez tenha sido a época que começamos a conversar mais...
A enfermeira do corredor bateu na porta do quarto.
- Senhora Ana... eu precisaria levar a Sol para um exame de ressonância. Você gostaria de nos acompanhar?
- Ah... não... eu aguardo aqui mesmo. Muito obrigada.
- A senhora fique a vontade.
Com cuidado e gentileza, a enfermeira desconectou os fios que mediam os batimentos cardíacos de Solange e empurrou a cama hospitalar para fora do quarto. Sozinha, Ana sentiu os nós de Ariadne tomando conta da barriga. Por onde começaria a montar aquele quebra-cabeças?
Nos últimos cinco meses, escutara tantas pessoas. Interditou a irmã, a pedido dos pais. O marido não acreditava no tratamento. A tia indicava padres e benzedeiras. Uma vizinha simpática orientava processar o hospital. Como foi que a vida da Sol foi parar nesse vendaval de problemas?
Ana conheceu Eduardo antes da Solange. Ele sempre foi um cara focado e sério. Um pouco conservador, mas brincalhão em muitos momentos. Quando Sol começou a sair com ele, pareciam opostos que se encaixavam. Optaram por uma vida juntos, com seis meses de relacionamento. Foram casados por sete anos. A boa situação financeira de ambos permitiu que viajassem para muitos lugares. Eduardo sempre foi um querido! O que diabos aconteceu nesse meio do caminho? Como era possível tudo virar de pernas para o ar daquele jeito?
O médico especialista bateu na porta do quarto de Solange.
- Senhora Ana... poderíamos conversar um pouco? - sentou-se em uma das poltronas de acompanhante do quarto, ao lado de Ana.
IV
Registro 97432 - projeto Yorick - Memento Mori
Solange espera Eduardo na fila do cinema. Anteciparam a compra dos ingressos para a pré-estréia do filme do Astronauta, um personagem de quadrinhos que Eduardo amava. Solange está feliz, pois o cinema na quinta-feira quebrava o ritmo pesado da semana. Solange se sente bem acompanhada, mas Eduardo demora no banheiro e seus braços começam a formigar: segura dois baldes de pipoca e um refrigerante grande.
Não sabe se por descuido ou pelas mãos dormirem, Solange sente um dos baldes lhe escapar pelos dedos. Como em uma cena de filme romântico, Eduardo a segura pela cintura e oferece a mão de apoio que faltava para salvar as pipocas. Apenas quatro sujam o chão do shopping. Solange sorri. Eduardo a beija. Ela sente que ele está com a mão úmida e gelada. Eduardo tem o cheiro do perfume da manhã. Pegam a fila da sessão.
- Você já leu alguma coisa do Astronauta?
- Você está maluca? Eu sou apaixonado pelo Astronauta! Quando eu era pequeno, meu pai costumava comprar os quadrinhos logo que chegavam na banca. Ele também colecionava comigo. - Solange adora escutar as reminiscências de Eduardo - Você sabe que ele desenhava, né? Então, criávamos histórias nossas para o Astronauta. Teve uma vez que criamos uma missão de dobra espacial, onde o Astronauta caía por acidente em uma Terra como a nossa, só que em um multiverso diferente, povoado por pigmeus. Então, eu era um dos pigmeus que ajudou o Astronauta a voltar para casa.
(continua...)
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