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DICA DE LEITURA #1 - APOLOGIA DA POLÊMICA, DE RUTH AMOSSY

Carxs visitantes desse estranho mundo Kepler-186f,

quando iniciei meu doutorado, eu estava com muita vontade de estudar uma categoria da Análise do Discurso que me parecia muito produtiva: a polêmica. Esbocei todo meu projeto entorno de uma hipótese: discursos são por natureza polêmicos e esse regime da polêmica é aquilo que sustenta a interação entre os envolvidos em uma mediação linguística.

Passaram-se dois meses e eu me distanciei dessa hipótese para uma outra que, conversando com meu orientador, nos pareceu mais madura: analisar os espectros subjetivos de discursos de orientação espiritual, considerando-os literários. Dessa maneira, eu continuaria na pesquisa apaixonante sobre Literatura Barroca e deixaria a polêmica dar aquela fermentada na cabeça para, quem sabe, uma prosa futura.

Eis que o tempo para a prosa futura chegou. O momento para discutirmos sobre a polêmica nunca foi tão urgente. Na macro e nas micropolíticas, nas culturas diversas, estamos cada vez mais a mercê de embates polêmicos que parecem desafiar as bases da nossa frágil, cambaleante e tão nova democracia. Isso me despertou para iniciar um artigo dialogando a polêmica, a psicanálise e as tão comentadas fake news. 

Daí, acho que em março desse ano, tivemos na PUCSP uma aula com a professora Ruth Amossy, diretora de um grupo de pesquisa em Análise do Discurso na Universidade de Tel Aviv, a qual também ministra aulas. Amossy estava no Brasil para divulgar seu livro novo, Apologia da polêmica, lançado em 2017 no Brasil, pela editora Contexto. No livro, a professora analisa a fundo o fenômeno do discurso polêmico, observando como ele surge, se regula e quais são os papeis sociais que o autoriza. 

Dentre tantas passagens interessantes, destaco:

''... em nossa época, parece que os conflitos de opinião e seus escândalos ocupam um lugar preponderante na cena política. Quanto às mídias, elas não cessam de orquestrar e de difundir polêmicas sobre uma multiplicidade de assuntos ditos de interesse público.''

e ainda...

'' a polêmica pública está indissoluvelmente ligada ao desacordo (...). A utopia de relações perfeitas se basearia em um acordo sem nuvens, isto é, na possibilidade de chegar a um acordo sobre formas de ver, de julgar e de fazer. (...) a divergência de opiniões e a discussão contraditória surgem como necessárias. Entretanto, elas são consideradas uma etapa, um estágio a ser superado.''

e o que importa para a professora é que...

''Direita/esquerda, igualdade/desigualdade, justiça/injustiça, coletivismo/individualismo, tolerante/intolerante são isotopias antagônicas que formam um sistema, cada uma existindo apenas como o inverso da outra.''

Da aula da professora e, posteriormente, da leitura de seu livro, o que me marcou em seus estudos foi a possibilidade de dialogarmos a polêmica com nosso turbulento cenário político-cultural cada vez mais moralista e, quem sabe, conseguirmos categorizar algumas estratégias para lermos melhor nosso mundo (o que inclui aqui sabermos lidar com a inevitável indústria de fake news). Talvez ela contribua para apontar direcionamentos para lermos com mais sabedoria os textos de nossa atualidade. 

O tempo todo você lê alguma coisa! O tempo todo você cria sentido sobre o mundo a sua volta! Não te dá medo refletir por um momento sobre a qualidade da sua leitura sobre as coisas de seu dia-a-dia?

Amossy terminou a aula convidando os brasileiros a meditarem sobre suas polêmicas, já que toda análise que ela faz é sobre um recorte específico do contexto francês. A grande mensagem que pude filtrar em Amossy é que não se faz democracia com consensos, mas são os dissensos que proporcionam mudanças e governabilidade nas múltiplas vivências. No entanto, quando os dissensos são violentamente expurgados, o que nos resta é apreciar uma sociedade de surdos, onde vence quem tem mais poder. 

Amossy nos (des)conforta, observando que nunca estaremos totalmente satisfeitos em uma sociedade democrática. Porém, em uma sociedade totalitária, sempre teremos grupos plenamente satisfeitos às custas de grupos plenamente insatisfeitos. Eu sinceramente ainda prefiro dividir e compartilhar dissensos, permitindo espaços para que eles continuem existindo.

Segue aqui o link para quem se interessar pelo livro.


Abraços saudosos,

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