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CONTO #3 - UMA BRIGA DE CÃO E GATO

I

O quadro de pintura abstrata. A música ambiente de um grupo brega qualquer. As revistas na mesa de centro com manchetes da vida de famosos. Duas ilhas, na incontinência de seus anseios. Parecia que, dos quinze minutos que esperavam, duas horas se passaram.

- Senha P93.

Preferenciais costumavam ser pessoas que necessitavam de abraços sociais. Preferenciais eram os idosos. Os deficientes físicos e intelectuais. Os obesos. Os pacientes com câncer terminal. Gestantes, no entanto, não estariam em um lugar como aqueles. Olhou o papel que segurava: P95.


II

A demanda sufoca um artesão. Pedissem à DaVinci uma Monalisa na angústia de uma semana, lhe entregaria uma peça manca, de olhares tortos, meia acabada. O lucro sobrepõe a condição de entregar ao cliente o que lhe é de direito. Aos poucos, as partes se acostumam. Assim é o capitalismo.

Saiu como NDR4000. Versão beta com paths de atualização que lhe transformariam no NDR7800. Um preguiçoso, deitado no sofá, também pode ser tão útil quanto um pró-ativo que não para de arrumar o que fazer. No fim, você se acostuma com ambos.


III

Por duas horas, assistia seu desenho predileto. Um cachorro cuidava da casa, enquanto o dono ia trabalhar. Um gato acabava com sua paz e assim iniciava cada episódio de um Tom & Jerry demoníaco, um pouco mais agressivo que o clássico da década de 1940. No fim de cada episódio, o cachorro conseguia predominar a ordem. A volta do status quo: seu dono chegando do trabalho, toda a bagunça imperceptível por debaixo de um tapete nem sempre metafórico.

Aquele desenho parecia a época da sua meninice. A casa seria nossa inconsciência? A briga do cachorro e do gato, uma guerra dos traumas e das tramas eventuais? Quando volta o dono disso tudo? Seria o cachorro, o mesmo de outrora? Ele continuaria dividindo o mesmo teto que seu dono, sem nenhum peso consciente? O gato... que porra de gato era aquele? Um felino carente ou um predador natural daquele homem-rato engaiolado em uma rotina trabalho-casa-trabalho-casa?

Então, desligou a televisão e decidiu tirar uma soneca no meio da tarde.


IV

Na praça há dois quarteirões onde moravam, experimentou o primeiro baseado. 

AN ERROR AS OCCURIED. TO CONTINUE, WAIT A SECOND...

O cheiro da fumaça confundia os sentidos, mas que a maconha tragada. Não queria se abrir aos colegas. Todos ririam.

AN ERROR AS OCCURIED. TO CONTINUE, WAIT A SECOND...

Talvez potencializavam o efeito de uma maconha original, misturando um monte de outras merdas alucinógenas naquele mesclado oferecido pelo Alemão. Era assim que chamavam o aviãozinho local.

AN ERROR AS OCCURIED. TO CONTINUE, WAIT A SECOND...

Continuou fumando tabaco e maconha dos dezesseis até os sessenta e oito anos e o primeiro sintoma de um pulmão cancerígeno.

AN ERROR AS OCCURIED. TO CONTINUE, WAIT A SECOND...
AN ERROR AS OCCURIED. TO CONTINUE, WAIT A SECOND...
AN ERROR AS OCCURIED. TO CONTINUE, WAIT A SECOND...
AN ERROR AS OCCURIED. TO CONTINUE, WAIT A SECOND...
AN ERROR AS OCCURIED. TO CONTINUE, WAIT A SECOND...


V

Seria o melhor mês de sua vida? As visitas estavam liberadas. A filha passou o tempo todo ali. Os dois últimos anos foram muito complicados. Para ele, a filha era uma criança que nunca cresceria. Sempre conquistou tudo que quis. Inclusive auxiliou nos custos daquele quarto que estava e todo o tratamento. Vivia com uma garota que apresentava como amiga. E achava que o pai era bobo. A viuvez não acabou com o faro para achar viado. As duas se olhavam daquele jeito de deixar pequena qualquer pauta a sua volta. Era amor com paixão. Só que a filha nunca quis saber de se abrir para o pai. Pode uma filha esconder a vida do pai? A menina também foi contra o caminho que ele escolheu para o tratamento do câncer pulmonar. É o inferno mesmo! Queria protagonizar tudo! Mas pagava. Pagava muito. A casa também. Todas as contas.

- Pai, você não está com frio nos pés?

- Não, filha... assim tá bom.

- E esta falta de ar?

- É... está... tudo bem, filha.

O diabo com os excessos. Saudade da vida moderada. Queria mesmo um vinho. Um baseado. Uns queijos. Mais tarde os irmãos da sua falecida apareceriam por lá. Gostava muito da companhia dos cunhados.


VI

Os processadores neurais do NDR4000 custavam a carregar os arquivos da matriz. Ficou caído em frente a um banco de concreto. A praça vazia de humanidade. Pombos. Muitos pombos. Quando chegaram, encontraram um quarentão de joelhos com dois daqueles ratos voadores na cabeça. Haviam roubado alguns pertences como relógio, sapatos e o cinto.

- Parece que enquanto os processadores neurais confirmavam as informações da matriz, ele permaneceu travado.

- Como assim?

- Não sei... mas acho que isso espantou a galera da praça.

- Bom, traga ele pra cá.

- Ou o que sobrou dele, né?!


VII

Às 19 horas, pelos últimos vinte e sete dias úteis, contando os sábados, a televisão transmitia o noticiário local. Naquele dia, ele não pode acompanhar o desenlace do episódio sobre os moradores da Brasilândia que dormiam na fila de um hospital de gestão público-privada para realizar exames de rotina. Ele que, na juventude, questionou moderadamente as truculências da saúde pública paulistana, percebia que na melhor idade a gaiola de rato que o mundo se enfiara. Mais que isso, como positivista, tinha certeza que se o mundo andava mal, ele tinha mais que agradecer as coisas boas que a filha lhe proporcionava. Chega de protestos. Chega de se envolver naquilo que não vai mudar a vida corrente. A vida do dia. Lutava para voltar a ter a velha sensação de, numa tarde de domingo, descansar a cabeça no sofá e escutar a trama de um filme de ação qualquer. Tiros e explosões eram os seus favoritos.

Naquele dia, precisou ser encaminhado às pressas daquele quarto de hospital que mais parecia um spa, para uma Unidade de Terapia Intensiva. Com uma das piores crises de falta de ar que lhe acometera durante todo o tratamento do câncer, até as enfermeiras diziam uma a outra: câncer é fogo. O câncer, ele sabia, transformou sua matéria viva, em uma carne seca com movimentos limitados. O câncer era o gato maldito que destruiu a ordem da casa. O câncer aproximou pai e filha num clichê de filme romântico. Só que ele precisou ter câncer para encontrar a filha na intimidade.



VIII

O NDR4000 andava com naturalidade. A aparência ainda era um problema para futuras atualizações. Quando o quadro de saúde do cliente apareceu no e-mail da engenharia, sobrou tempo para atualizar o software na versão que estava: processamento neural limitado, bugs de movimentações complexas. Porém, a empresa sabia que até a família se livrar do luto e ter olhos críticos sobre o andróide cheio de defeitos que viveria com eles, as atualizações estariam prontas. Muitos familiares também se acostumavam com o sistema incompleto e deixam daquele jeito mesmo. Se não convivessem com modelos N7600 para cima, não teriam o comparativo para enxergar defeito.


IX

A angústia de sumir para sempre tinha fim. O câncer não acabaria de vez com sua existência. Um vizinho seu teve o mesmo problema e anda por aí saudável. Ambos fumantes. Com o céu laranja de São Paulo também não havia como fugir da praga pulmonar. O tomate também fodia todo mundo por dentro. Quando chegou aos sessenta, só comia orgânicos. Caminhava. Corria vez ou outra. Comprara um cachorro de raça com a intenção de enganar o sedentarismo e sair de casa todo dia para passear com o bicho. Não tinha como fugir.

Quando recebeu o diagnóstico decidiu contratar os serviços de upload mental da empresa que conseguiria pagar. Precisava preservar sua memória e salvar a sensação de estar vivo por aí. Aquilo saciou sua mente, a ponto de encarar o câncer terminal como um resfriado filho da puta que te derrubou por um mês. Driblaria a metafísica da eternidade cíclica, do descanso eterno. O NDR4000 era o cachorro que arrumava a bagunça do gato.


X

O NDR4000 tinha uma paralisia facial momentânea na enunciação de sons vocálicos abertos. Isso retardava a comunicação em alguns segundos, mas no fluxo natural da vida, poderia ser tomado como um tique nervoso ou um epítome de um psicótico. A resolução do problema veio dois dias depois do andróide ser entregue à família e foi inserida como linha de atualização do software.

XI

Às duas da manhã ela recebeu a notícia que aguardava durante todo aquele pesado mês. A luz do celular em sua bochecha acordou a namorada. Levantou, tomou o copo de água com açúcar preparado pela amante. Começou o protocolo ligações para familiares. Calçou umas meias quaisquer. Um tênis. Prendeu o cabelo em um rabo de cavalo. Escovou os dentes. Daí então, se convenceu a não ir sozinha para o hospital.

XII

O NDR4000 chegou duas horas depois do enterro. O combinado era a família recebê-lo no estacionamento do cemitério, para poupar no frete. Os dois cunhados, os dois sobrinhos-netos e a filha o cercaram em expectativas. NDR4000 desceu do carro e fechou a porta. Olhou para todos. Sorriu. Caminhou. Recebeu os abraços de todos. Sentiu o ombro molhao de lágrimas. Olhou um pouco para cada um.

- Ééé... muito bom estaaar com vocês... de novo.

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