Eu e o filósofo e doutor em Linguística Anderson Ferreira acabamos de publicar um artigo que analisa a décima de Gregório de Matos, Outra pintura em sombras desta dama, com o intuito de examinar as estratégias de (des)cortesia nos enunciados desenvolvidos por esse gênio da Literatura Barroca.
Estamos carecas de saber que nossa herança cultural não privilegia muito outras etnias, que não as europeias. Dessa maneira, não seria nenhuma surpresa identificarmos que Gregório de Matos tematiza a beleza de uma formosa dama de seu tempo, com as formações discursivas que direcionam as vozes do poder local no Brasil colonial do século XVII: o homem, o branco, o aristocrata, o acadêmico. No entanto, não crucifiquemos o pobre Gregório. Como um bom Barroco, gosto de enxergá-lo como um sujeito cinzento, demaziado humano, com uma sensibilidade invejável em sua época. Sem dúvida, um dos grandes gênios de nossa cultura antropofágica.
Gregório de Matos funde, neste poema, erotismo e religiosidade, sacralidade e profanidade para retratar as qualidades de uma Teresa negra no Brasil colonial. Então, fundamentamos nossa pesquisa na noção de cortesia proposta pela linguista Kerbrat-Orecchioni, que ressignifica a teoria dos linguistas Brown e Levinson, compreendendo a cortesia como a produção de antiameaças mediante os encadeamentos corteses e descorteses no desenvolvimento de um texto.
Para apimentar ainda mais nossa análise, resgatamos os estudos de um dos meus filósofos prediletos, Gilles Deleuze, o qual discute, pela noção de dobra, os processos de construção de territórios existenciais do indivíduo dentro de sistemas de coerções e códigos múltiplos, batizado de processos de subjetivação. Deleuze reflete, de forma brilhante, não apenas sobre os rendimentos de um sujeito individual em desdobrar sobre o mundo que vive, mas o modo intensivo de produzir a curvatura de certo tipo de forças sociais, que, em nossa pesquisa, influencia na constituição de um discurso que é cortês e descortês com o que representa Tereza no Brasil colonial.
Espero que apreciem a leitura e convido vocês para uma boa discussão, já que os resultados que propomos nessa análise estão em aberto, representando pesquisas ainda em andamento tanto minhas, em meu doutorado em desenvolvimento, quanto de Anderson Ferreira, que já iniciou eu pós-doutoramento na PUCSP. Segue abaixo o link para o artigo. Vale também destacar que a revista Palimpsesto é uma revista de referência nos estudos da linguagem, organizado pela UERJ - injustiçada por um governo golpista e corrupto - e que traz neste edição um diálogo interessante entre a Linguística e a Crítica Literária.
Aquele abraço!
Link para o artigo:
http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/palimpsesto/article/view/35284
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